A “crise” leva-nos a… criar!

Fevereiro 12, 2010

Talvez seja esta a mais badalada conversa de café.

Há umas semanas fui ver a peça “Afonso Henriques” no teatro D. Maria II, e recordo-me de uma cena na qual um dos guerreiros se levanta e exclama, após ter sido confrontado com uma questão que punha em causa e sua riqueza: “Estamos em crise!”, e o público reage com uma gargalhada unânime.

Mas o que me espantou não foi a frase incluída no guião desta peça infanto/juvenil: foi saber, em conversa com um dos actores que, desde que a peça estreou em 1982,  usam esta frase e, segundo ele, “resulta sempre”…

A crise!

Mas não é apetência, miragem ou mito, especialmente no nosso cenário económico actual. Uma análise aos indicadores leva-nos a entrar numa verdadeira situação de desespero: no emprego, na produção, no PIB, no crescimento. E ainda, um olhar mais atento ao cenário nacional prevê uma situação económica insustentável no longo prazo, fortemente relacionada com a nossa perda de competitividade.

As opiniões são muitas: Paul Krugman aponta que o euro acabou por nos tornar mais frágeis, assim como a Espanha ou a Grécia: uma vez que nossa moeda não desvaloriza (beneficiando quem produz em Portugal) temos poucas bases competir com outros países da Europa, o que pode levar a uma queda no investimento estrangeiro. Sumodip Sarkar no livro “Empreendedorismo e Inovação” visivelmente aponta para Portugal como um país na cauda da Europa em termos da relação PIB/taxa de crescimento. Indica que, se Portugal mantiver o crescimento que possui até actualmente, irá situar-se como o país com o PIB mais baixo da Europa em 20 anos. Outros ainda apontam que a situação a nível de planeamento da despesa pública irá sofrer uma reviravolta no longo prazo, por não ser possível manter a relação receitas/despesas, face a uma diminuição potencial das primeiras e um aumento das segundas pelo incremento do risco, das despesas sociais e do investimento público.

Mas vale a pena fazer malas e fugir ou desistir já à partida?

Quais as soluções?

Enquanto Krugman aponta para um corte nos salários como solução, outros indicam coisas mais positivas. No paper da Comissão Europeia “Europa 2020”, consta-se que o espaço deixado pelas empresas que fecharam por motivos da crise económica não irá ser preenchido e que terá que existir uma nova geração empresas com valores mais competitivos, mais eficientes, mais sociais e mais verdes. Sarkar, por outras palavras, concorda que num mundo em metamorfose, não é suficiente trabalhar como sempre e aponta a inovação e o empreendedorismo como a solução para o nosso desenvolvimento.

E são estas as respostas, não só para induzir a competitividade mas também para parar o aumento do desemprego e das minorias colocadas em situação de fragilidade. Como dizem os chineses: crise = perigo + oportunidade.

…e, pelo menos, enquanto nos preparamos, já nos munimos de mais tópicos de conversa de café! 

Link relacionados

Discurso de Paul Krugman sobre a crise

5 Respostas to “A “crise” leva-nos a… criar!”

  1. Francisco Lima Aires said

    São nos momentos mais difícies da nossa vida, que a nossa mente depara-se com um fluxo de actividade mais intenso. Nestas alturas estamos mais activos a recordar determinadas passagens da nossa vida, relativizamos mais algumas preocupações e “criamos” mais soluções e oportunidades. Não sou da opinião, ao contrário de muitos outros, da estabilidade como item essencial para a criação. De facto, o ser humano quando está à beira de algum “abismo” tem a capacidade de criar e inovar com mais intensidade. Será que as empresas possuem esta capacidade? Sim, porque as empresas são pessoas, e são elas que ao longo do tempo criam a sua prórpia entidade e visão.
    Mas existem muita empresas, que ao não ter esta capacidade vão perdendo a habilidade de mutação, essencial à sobrevivência! Esta crise de que tanto se fala, vem de facto filtrar o que no meu entender deve ser filtrado. Não defendo a redução de salários como meio de ultrapassar esta crise. Trata-se de um medicamento para retardar a morte, mas que não a evita. Hoje mais que nunca as empresas tem que estar preparadas para a mudança, e ela faz-se com inovação e empreendedorismo. Não estou a falar de duas expressões muito complexas. Deve começar por questionar como eu faço… e como eu devo fazer…e como os outros acham que deveria fazer…e como os clientes gostam que deveria ser feito? Questione-se antes de tudo!!

    • Num cenário adverso seria de esperar que apenas os melhores sobrevivessem e daí resultasse essa tal “selecção natural”. O que pode no entanto acontecer é que nem toda a selecção é natural. Isto quer dizer que não só os “bons” sobrevivem. Sobrevivem os que já detêm mais poder (geralmente, o de pagar, mas também o de informação, decisão, etc), os que fogem às boas práticas, ou mesmo os que triunfam pela desonestidade. Isto pode resultar maioritariamente das assimetrias e das externalidades, nem sempre terminando em equidade para as empresas. É por isso que se fala em “(un)natural selection”. Assim é essencial para as empresas inovar, sem dúvida, mas contrabalançar a inovação com uma boa dose de prevenção do risco (diversificando o investimento e estabelecendo reservas superiores) e de optimização da eficiência.

      Veremos quem sobrevive!

  2. O artigo de base é excelente.
    Não partilho a opinião de que o euro nos deixa fragilizados. Ainda não compreendemos que o patamar de exigência aumentou significativamente ao pertencermos ao espaço euro – uma moeda forte. Ficar de fora e esperar que as desvalorizações milagrosas corrigissem a nossa incapacidade competitiva era adiar o problema.
    Temos que assumir de uma vez por todas que uma pequena economia e aberta tem a qualidade do seu padrão de vida indissociável da capacidade em ser competitiva, ao nível dos diferentes sectores – agricultura, indústria e serviços -, à escala mundial.
    A trajectória será penosa, mas o futuro seguramente mais risonho!

  3. Excelente resposta, Ricardo!

    De facto este artigo é uma recolha de informação e não uma opinião. A opinião de Krugman (também apontada para outros países mediterrânicos)é, sem dúvida, polémica. (Os economistas analisam a realidade por pontos de vista inesperados!)
    Vamos considerar a teoria de Krugman uma chamada de atenção. De facto o Euro pode ter reduzido a nossa competitividade relativamente a outros países da Europa em termos de incentivos financeiros (que se medem por nível de impostos, por risco, por custo de vida, etc). Mas nós temos outros “trunfos na manga”, entre estes a nossa qualidade de vida. Temos que nos saber “vender” o que temos de melhor e para isso precisamos de …confiança!

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