Talvez seja esta a mais badalada conversa de café.

Há umas semanas fui ver a peça “Afonso Henriques” no teatro D. Maria II, e recordo-me de uma cena na qual um dos guerreiros se levanta e exclama, após ter sido confrontado com uma questão que punha em causa e sua riqueza: “Estamos em crise!”, e o público reage com uma gargalhada unânime.

Mas o que me espantou não foi a frase incluída no guião desta peça infanto/juvenil: foi saber, em conversa com um dos actores que, desde que a peça estreou em 1982,  usam esta frase e, segundo ele, “resulta sempre”…

A crise!

Mas não é apetência, miragem ou mito, especialmente no nosso cenário económico actual. Uma análise aos indicadores leva-nos a entrar numa verdadeira situação de desespero: no emprego, na produção, no PIB, no crescimento. E ainda, um olhar mais atento ao cenário nacional prevê uma situação económica insustentável no longo prazo, fortemente relacionada com a nossa perda de competitividade.

As opiniões são muitas: Paul Krugman aponta que o euro acabou por nos tornar mais frágeis, assim como a Espanha ou a Grécia: uma vez que nossa moeda não desvaloriza (beneficiando quem produz em Portugal) temos poucas bases competir com outros países da Europa, o que pode levar a uma queda no investimento estrangeiro. Sumodip Sarkar no livro “Empreendedorismo e Inovação” visivelmente aponta para Portugal como um país na cauda da Europa em termos da relação PIB/taxa de crescimento. Indica que, se Portugal mantiver o crescimento que possui até actualmente, irá situar-se como o país com o PIB mais baixo da Europa em 20 anos. Outros ainda apontam que a situação a nível de planeamento da despesa pública irá sofrer uma reviravolta no longo prazo, por não ser possível manter a relação receitas/despesas, face a uma diminuição potencial das primeiras e um aumento das segundas pelo incremento do risco, das despesas sociais e do investimento público.

Mas vale a pena fazer malas e fugir ou desistir já à partida?

Quais as soluções?

Enquanto Krugman aponta para um corte nos salários como solução, outros indicam coisas mais positivas. No paper da Comissão Europeia “Europa 2020”, consta-se que o espaço deixado pelas empresas que fecharam por motivos da crise económica não irá ser preenchido e que terá que existir uma nova geração empresas com valores mais competitivos, mais eficientes, mais sociais e mais verdes. Sarkar, por outras palavras, concorda que num mundo em metamorfose, não é suficiente trabalhar como sempre e aponta a inovação e o empreendedorismo como a solução para o nosso desenvolvimento.

E são estas as respostas, não só para induzir a competitividade mas também para parar o aumento do desemprego e das minorias colocadas em situação de fragilidade. Como dizem os chineses: crise = perigo + oportunidade.

…e, pelo menos, enquanto nos preparamos, já nos munimos de mais tópicos de conversa de café! 

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Discurso de Paul Krugman sobre a crise